sexta-feira, 10 de julho de 2015

Gerardo Mello Mourão - Poesia



    Elegia de Susana

            pulchri
            "0 pulchritudo!"
            Santo Agostinho
"Un soir j'ai assis Ia Beauté sur mes genoux"
Rimbaud
    "Susana era a delícia da beleza.
    Fizeram-na despir o véu para se saciarem de sua beleza.
    Delicata nimis et pulchra specie' - (In Vulgata)
    Do Livro de Daniel - Parte Deuteronômica



    Elegia de Susana


    Atravessa a noite e o coração
    a flecha de seu nome:
    Serias Isabel ou Catarina
    eras Susana
    E os olhos te distinguem
    no catálogo dos sonhos,
    pois,
    eras uma vez a rosa, o pêssego, o favo de luz
    das pupilas de mel
    e no vinho da boca a voz de mel
    a melodia
    a embriaguês das noites e dos dias,
    pois,
    eras bela ao crepúsculo
    bela ao crepúsculo
    da aurora - e ao crepúsculo da tarde
    ias ficando cada vez mais bela

    e à penugem da noite
    regias
    inventavas
    verão e primavera
    e outras estações que tiravas dos seios
    entre linhos e sedas
    e às vezes
    entre vinhos lareiras e edredons.

    E a cada linha feita - desfeita - no teu rosto
    eras e não eras
    e eras
    a promessa e a memória da beleza
    ao crepúsculo da aurora e ao crepúsculo da tarde

    E sobre a pele números e aromas
    iam manchando e desmanchando
    a rosa de teu rosto
    e eras - e não eras
    e eras

    sugerida uma vez e outra vez e assim
    iam-se contando as pétalas
    na lentidão do gesto:

    uma rosa - outra rosa - a mesma rosa
    desabrocha devagar
    da memória da rosa
    tantas vezes achada
    tantas vezes perdida:

    ao teu poeta resta
    a rosa da memória - resta
    aquele aroma de plantas e jardins
    um riso em flor de gerânios chilenos,
    pois,
    os gerânios começavam a chegar
    e chegavam contigo
    das janelas de Viña del Mar
    ou
    dos jardins da Flórida onde
    o cisne dos navios carregados de flores
    voavam sobre as ondas rumo à noite das Bahamas:

    e ali eu te chamava Catarina.

    E à madrugada
    sábia já de beijos
    a boca te dizia
    Susana
    e eras Susana e eras Catarina
    e tinhas
    a cada estação do ano um nome novo

    E no mapa da mina de teu nome
    numeroso e único
    viajei o mapa-mundi e o mapa dos tempos
    a caminho de ti
    e desde
    e até.

Fonte: Jornal de Poesia - http://www.revista.agulha.nom.br/mour02.html