domingo, 6 de setembro de 2009

Crônica - Lúcio Alves de Lima


Lúcio Alves de Lima é tradutor de O tambor, de Gunter Grass, Prêmio Nobel de Literatura de 1999 - lal. palmas@uol.com.br









Vida autêntica


Escrever é difícil. Escrever bem é mais difícil ainda. Escrever bem e comunicar algo original é raro. Acontece uma ou outra vez. Era o que dizia o colunista de um jornal da cidade de Porto, Portugal, na década de 70. Ele citava Hemingway e Fitzgerald, dois notáveis escritores americanos, para ilustrar a boa arte de redigir. Clareza e simplicidade eram, segundo ele, os principais atributos, para quem queira se exprimir com propriedade... e ser lido com prazer, que é o propósito final de quem se dedica a uma tarefa dessas. Concluía dizendo que a boa arte é uma manifestação de autenticidade da vida.

Mas seu artigo na verdade era sobre Portugal - naqueles tempos, vivendo manifestações transbordantes de clareza, simplicidade e alegria. Não tinha nada a ver – na verdade parecia outro país – com aquele que conheci em 1974, antes da Revolução dos Cravos, que libertou o país do totalitarismo salazarista, quando passei por Lisboa, a caminho de Paris. Nessa época Portugal era um país triste, soturno, sob um regime ansilosado, que enregelara o ânimo de seu povo. A revolução ocorreu em abril de 1975 e agora, em 1978, depois de viver quatro anos na Alemanha e Inglaterra, eu estava retido em Lisboa, com o passaporte vencido, querendo voltar para o Brasil. Mas também adorando a experiência de contato com a nova realidade.

Tudo era alegria. Fundaram jornais e revistas por todos os lados. Lisboa pululava de livrarias, bares, teatros, cinemas, academias de danças e pinturas, galerias de arte. Havia uma explosão demográfica de pintores, escritores, músicos e poetas. Painéis coloridos mudavam o desenho das cidades. Todo mundo em Portugal, nesses dias, era artista. Todo mundo queria expressar a vida pública franca e aberta – democrática – que se instalara no país, vale dizer, todo mundo queria expressar sua clareza e simplicidade.

De minha parte – que sofro de agorafobia e outros sintomas fóbicos – tratei logo de arrumar uma namorada e fui morar em Castelo Branco, quase na fronteira da Espanha; e era tão bom viver lá que o hotel em que passei a residir se chamava Hotel dos Suspiros... e ficava na Rua dos Prazeres! E de minha ampla janela vislumbrava as ruínas do castelo branco medieval, sobranceiro à cidade de pedra e calor humano!

Conheci o poeta Nuno Júdice e me tornei amigo do pintor Ruy Monteiro que, como eu, morava em Castelo Branco; reaprendi a vida simples, honesta e clara dum povo autêntico. A infância já não parecia um território tão distante. Mas era sem dúvida bem diferente daquele que temia encontrar de volta no Brasil (e acabei encontrando). Aqui reina – sempre reinou - o território da malícia, da esperteza e da cabotinagem. Dêem uma olhada (lugar-comum) no perfil de nossos políticos.

Não vou falar do dia-a-dia de nossas práticas políticas. Não. Estão escancaradas nos veículos da mídia séria e informativa. Bons profissionais, de forma clara e concisa, têm acompanhado e retratado com melhor propriedade o dia-a-dia de nossos homens públicos. Desse retrato cruel, emerge um reflexo de cinismo, que parece matéria constitutiva de nossa personalidade. Este é meu tema.

Como tudo isso nos remete à nossa origem, resolvi falar de um Portugal que vi amadurecer - voltei há um ano e meio, continua porreta – e, como parece sempre estar lidando com a poesia, quero homenagear, com algo meio camoniano a propósito de seu povo: “Portugal é a vitória da inteligência e a festa dos sentidos na ilha dos amores” – ao contrário de nós, brasileiros, a quem falta a circulação da luz, da clareza e da simplicidade.


Imagem: http://www.afugadocaracol.com/wp-content/uploads/2009/06/camoes.jpg