sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Otto Maria Carpeaux


Nesta semana, vamos conhecer um belo ensaio do escritor austríaco Otto Maria Carpeaux sobre a genial obra de Gustave Flaubert: Madame Bovary. Mas antes de passarmos propriamente para leitura do ensaio, que publicaremos em algumas edições, devido à sua extensão, vamos conhecer um pouco do homem Carpeaux.


Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen, de nascimento), filho de pai judeu e mãe católica, nasceu em Viena (Áustria), em 9 de Março de 1900, onde cursou o ginasial. Ingressou na faculdade de direito, por sugestão familiar, abandonando-a um ano depois. Estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada(em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música. Em 1930 casou-se com Helena Carpeaux. Dedica-se intensamente à literatura e ao jornalismo político. Converte-se à religião católica e torna-se homem de confiança de dois primeiros-ministros em Berlim, Engelbert Dollfuss e Kurt Schuschnigg, os últimos primeiro-ministros antes do Reich Alemão respectivamente. Com a queda deste último, foi obrigado a seguir para o exílio. Em princípios de 1938 foge com a mulher para Antuérpia (Bélgica), onde ainda trabalha como jornalista na Gaset Van Antwerpen, maior jornal belga de língua holandesa. Diante da escalada nazista, Carpeaux ainda sente-se inseguro e foge com a mulher, em fins de 1939, para o Brasil. Aqui trabalha com jornalista, crítico literário e crítico musical, além de desenvolver inúmeras atividades intelectuais. Em 3 de fevereiro de 1978, sexta-feira de Carnaval, morre no Rio de Janeiro, de ataque cardíaco.



Madame Bovary

Por Otto Maria Carpeaux


Dicionários modernos da língua portuguesa definem como “bovarismo” o pendor de certos espíritos românticos para emprestarem a si mesmos uma personalidade fictícia e a desempenharem um papel que não se coaduna com a sua verdadeira natureza. O termo significa, portanto, a intervenção desastrosa de idéias pseudo-românticas na vida real: destino próprio de pessoas educadas sob os auspícios de falsos ideais e, depois da decepção inevitável, roídos pelos ressentimentos. O pensador francês Jules Gautier acreditava descobrir o mesmo “bovarismo” em grupos inteiros da sociedade, como a classe média empobrecida, que se esforça para viver conforme critérios aristocráticos; e até em nações (pensava ele nos latino-americanos de então, que perderam a autenticidade por julgarem-se afrancesados). Diz-se “bovarismo” assim como se diz “quixotismo”, “hamletismo”, “donjuanismo”. Trata-se de um dos grandes tipos da natureza humana e seu protótipo é Emma Bovary, a triste heroína do romance de Gustave Flaubert.

Madame Bovary ocupa, por vários motivos, posição central na história do gênero romance. Durante séculos esse gênero passara por ser leitura indecente e corruptora, proibida às mocinhas. O processo de reabilitação foi vagaroso, interrompido por recidivas e uma delas foi, em 1857, o processo movido contra o autor de Madame Bovary perante a Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena. Flaubert foi absolvido pelos juízes, mas não pelos críticos puritanos, que não lhe perdoaram o tratamento cru do tema: adultério. Mesmo mais tarde houve quem opusesse à “indecência” de Madame Bovary a visão “mais sublime” de outro e quase contemporâneo romance de adultério: Anna Karenina. É que os russos (e os ingleses, e os alemães, etc.) são moralistas, mas, em francês, a palavra “moralista” tem outro sentido: significa um homem que observa insubornavelmente as fraquezas humanas. Flaubert foi um “moralista” assim: um observador insubornável da realidade. Por isso a história literária o define como realista, ocupando a posição intermediária entre Balzac e Zola.

Ao grande crítico marxista George Lukács devemos uma distinção engenhosa entre o realismo de Balzac e o naturalismo de Zola. Mas nenhuma das duas definições é aplicável a Flaubert. Não é naturalista nem é propriamente realista. É, unicamente artista. Madame Bovary é, simplesmente, uma obra de arte. É a primeira obra de arte, conscientemente criada, na história desse gênero sem regras e sem arte que é o gênero Romance.

Gustave Flaubert nasceu em 1821 em Ruão, filho de um médico, de família abastada e enraizada na vida de província. Cresceu, dedicado a leituras românticas e sonhos românticos, em companhia dos amigos de infância, Louis Bouillet, mais tarde poeta parnasiano, e Alfred Le Poittevin, cuja irmã Laure, foi seu primeiro amor (ela casará com Gustave de Maupassant e será mãe do grande contista). Como estudante em Paris. Flaubert é romântico; mas seu primeiro romance, Novembre (que ele nunca publicou), já trata de amores carnais e desilusões amorosas. Viagens à Córsega, Itália, Egito. Em 1856, Madame Bovary. Processo por “publicações de escritores obscenos”. Flaubert fixa residência em Croisset, perto de Ruão, vivendo de rendas. Correspondência com as amigas Louise Colet e Georges Sand, a célebre romancista. Publica, sucessivamente, as obras-primas: Salammbô, L’Éducation Sentimentale, La Tentation de St. Antoine. Amizade com os irmãos Goncourt, Zola, Turguniev. Papel importante na formação literária do jovem Maupassant. Pela falência do marido de sua sobrinha, sérias dificuldades financeiras. Flaubert morreu a 8 de maio de 1880.

Além dos romances já mencionados – dos quais hoje em dia, sobretudo L’Éducation Sentimentale é considerado como obra-prima, escreveu Flaubert Trois Contes, três contos magistrais, entre o quais se prefere Um Coeur Simple. O romance Bouvard et Pécuchet ficou incompleto. Mas, em primeira linha, é Flaubert o autor de Madame Bovary.


(...)


Até amanhã!




In.Madame Bovary. Gustave Flaubert. Trad.: Sérgio Duarte. Rio de Janeiro: Ediouro. s/dp.11-12

Fonte da biografia de Otto Maria Carpeau: http://pt.wikipedia.org/wiki/Otto_Maria_Carpeaux

Imagem:http://3.bp.blogspot.com/_RJ1gFmh-xQw/So1eyxqcLCI/AAAAAAAABRg/iIP_zKU5l3w/s1600-h/CARPEAUX+1.jpg