quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Otto Maria Carpeaux - Madame Bovary - Última Parte


Com esta parte do texto,chegamos ao final do estudo de Otto Maria Carpeaux sobre Madame Bovary, de Flaubert. Boa Leitura!




(...)




Daí em diante, o declínio é rápido. A cena na catedral de Ruão, entre Emma e Léon, é a peripécia para a catástrofe. Enfim, Emma, no leito de morte, entre as rotineiras frases untuosas do padre e as imbecilidades do livre-pensador Homais - é a paródia da catástrofe de uma tragédia grega.



Seria possível aprofundar a análise durante páginas e páginas, lembrando inúmeras relações escondidas e significações mais ofensivas. Madame Bovaryu é uma obra de arte quase sem par. E poderia ser um incomparável manual de arte de escrever romances. Mas não o tem sido. O modelo é difícil demais. Qualquer um não tem o temperamento de poder enclausurar-se em Croisset, como um monge no deserto, para elaborar obra daquelas. Flaubert tem tido poucos discípulos, entre os quais convém ressaltar os nomes de Henry James e James Joyce. Madame Bovary continua o mais alto exemplo de um romance como obra de arte.


A obra também continua muito lida. É uma pena, certamente, que muitos leitores não dediquem a necessária atenção à leitura. A história de Emma Bovary interessa e interessará sempre o mais perfeito, o mais inexorável "romance de adultério", com atenção especial àquelas poucas páginas que o Tribunal do Sena, em 1857, achou censuráveis. Mas a popularidade da obra também tem provocado oposição. Já houve quem achasse "inútil" o desperdício de tanta estilística para uma história tão vulgar. É que tewmos nós, hoje, com acontecimento quase rotineiros numa aldeia francesa em 1840? Quando do centenário do romance, em 1957, um crítico inglês deu à sua conferência comemorativa na BBC o título desdenhoso: "No Orchids for Mrs. Bovary". Esse equívoco, de considerar como morta a obra, parece-me sobremaneira incompreensivo.


Dos três grandes romancistas franceses do século passado - Balzac, Flaubert, Zola (Stendhal ocupa posição à parte) - nenhum está "antiquado". Os ambiente sociais, políticos, culturais daquela época já desapareceram; a esse respeito, suas obras têm valor de grandes, exaustivos e exatos romances históricos. Mas as consequências continuam e com elas tipos humanos criados por aqueles ambientes. Os homens e as mulheres aida são assim; e assim continuarão por muito tempo. Aqueles romances ainda são obras contemporâneas nossas. Essa dualidade de "histórico" e "contemporâneo" é a mesma que define as maiores obras de arte de todos os tempos, a Divina Comédia, as tragédia de Shakespeare, o romance de Cervantes. Não existem mais Florença medieval nem a Inglaterra elisabetiana nem a Espanha dos Filipes, mas os condenados do Inferno, Hamlet, Macbeth e Lear, Dom Quixote e Sancho Pança são nossos contemporâneos; encontramos seus iguais na rua. A mesma qualidade dual é a de Cousine Bette e Germinal, romances históricos e contemporâneos ao mesmo tempo, mas Madame Bovary é o maior entre eles.




FIM



In.Madame Bovary. Gustave Flaubert. Trad.: Sérgio Duarte. Rio de Janeiro:Ediouro, s/d, p.15-16.
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