terça-feira, 25 de agosto de 2009

Otto Maria Carpeaux - Madame Bovary


Continuamos com a análise crítica de Otto Maria Carpeaux. Aqui ele escreve sobre a noção de estilo. Desvela um Flaubert anti-romântico, avesso à burguesia provinciana, lutando pela palavra "certa" na composição da sua obra de arte: Madame Bovary. Com esta leitura, compreendemos o quão importante foi e é Otto Maria Carpeaux para as nossas Letras.
Boa leitura!



(...)


Declarando-se anti-romântico, Flaubert tomou fatalmente, e talvez contra sua vontade, o partido de tudo que é anti-romântico. Mas no campo anti-romântico também se encontram os pequenos burgueses estreitos e estúpidos, os "filisteus", os Charles Bovary, os Homais etc. Flaubert os odeia igualmente. Mas sua existência de um esteta, inteiramente dedicado ao trabalho de elaboração artística, só é possível à base de um sólido fundamento econômico, de rendas, tipicamente provinciano. Flaubert, embora mais rico, pertence à mesma classe dos Charles Bovary, Homais e Bournisien, à "elite" que vive do trabalho da gente do campo. Sua existência é de "filisteu".
Flaubert não podia deixar de revoltar-se contra essa sua condição humana. Fez viagens a países exóticos. Trouxe de lá enredos de obras tão fantasticamente românticas como Salammbô. Se não observássemos o pendor para o romantismo vito-hugoano em seu sucessor Zola, poderíamos dizer: o anti-romântico Flaubert é o último romântico. E agora se compreende melhor sua confissão: "Emma Bovary, c'est moi."

Com efeito, embora o romancista desprezasse sua personagem, sofreu com ela. Contou-lhe a história, sofrendo com ela. O enredo, de tanta simplicidade, desbordou. Flaubert, grande artista, teve um trabalho imenso para refreá-lo. Por isso, Madame Bovary é mais que a história de Madame Bovary. A diferença reside no estilo.

Ainda existem muitos equívocos em torno do conceito de estilo. Ainda há quem considere o estilo como espécie de embelezamento.

Escreva-se primeiro, em frase simples e compreensível o que se pretende dizer; depois, substituam-se as palavras normais por expressões mais raras, para exibir "riqueza lexicológica", enfim, estende-se a frase até ela fornecer um período, ao qual se confere, por conveniente modificações e inversões, a sonoridade musical.

É evidente que esse conceito de estilo, herança funesta do parnasianismo, não tem nada que ver com literatura séria e que não vale discuti-lo a respeito de Flaubert.

Mas é preciso confessar que Flaubert tem realmente algo de um parnasianismo em prosa. Lutando contra as dificuldades da língua e esforçando-se deseperadamente para dar às suas frases o caráter de algo definitivo. Flaubert é bem o contemporâneo dos poetas parnasianos Leconte de Lisle, Glatigny, Bouillet, este último seu amigo de infância. Mas quando um Lecont de Lisle reescreve pacientemente seus versos para conferir-lhes a famosa "beleza marmórea" e quando Flaubert sofre em noites de insônia ataques epiléticos porque não encontra determinada expressão, não se trata da mesma luta. Flaubert não pretende escrever "belo" ou "bonito", mas "certo". Proíbe, menos em raros casos de indispensabilidade, os adjetivos. Um substantivo que não representa o sentido desejado se não acompanhado de um adjetivo, não é o substantivo certo. Para dar determinado sentido, só pode haver uma determinada palavra, que é preciso descobrir. Flaubert não acredita na existência de sinônimos. Sempre só existe um único "mote juste". Quando todas as palavras de uma frase são os "mots justes" necessários e unicamente admissíveis, então só é preciso colocá-las na ordem certa - o que també é muito difícil - para conseguir a musicalidade da cadência. Assim nasce um estilo que é, ao mesmo tempo, exato e colorido, sóbrio e musical e - se quiserem - poético, mas, no entanto, nada de poesia e só prosa pura. Compreende-se as dificuldades imensAlinhar ao centroas com que Flaubert lutou para escrever uma frase, um parágrafo, uma página, um capítulo, um livro.

(...)


Até amanhã!


In.Madame Bovary. Gustave Flaubert. Trad.: Sérgio Duarte. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p.14-15.
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