sábado, 29 de agosto de 2009

Manuel Cofiño - Conto


Manuel Cofiño - (1936 - 1987) - Escritor cubano, nascido em Havana, situado entre os maiores expoentes do realismo socialista de Cuba, é autor de contos e romances, valendo destacar: 1979 - Um trecho de mar e uma janela (histórias).1975 - Quando o sangue parece fogo (romance). 1971 - A última mulher e a próxima batalha (romance), com este romance recebeu o Prêmio Casa de las Américas. 1969 - Hora de Mudança (romance).



Um Trecho de Mar e uma Janela


Porque sempre há um livro, um sorriso, uma folha levada pelo vento, um trecho de mar e uma janela – sempre haverá uma recompensa. Conheci-a no acampamento Maravilha Vermelha. Comandante de uma brigada. Entusiasta, incansável, e além do mais, o que causava também admiração, era o fato de não ter medo das rãs que abundavam naquele terreno tão barrento.

Diariamente, eu a via subir agilmente na carreta, e aos domingos lavar sua roupa, sob o flamboyant. Durante o temp

o em que ficamos ali, conversamos umas dez ou doze vezes. Eu gostava da sua maneira de dizer as coisas. Pois o amor e as palavras ardem e se apagam, saltam e se procuram como sementes e cinzas. Era isso o que ela queria dizer. E era como se limpasse as palavras, esfregando-as contra a vida.

Os homens foram transferidos e ela ficou ali com suas companheiras. Lembro-me que ao despedir-me, disse: Bem. Fico alegre em saber que você existe.

Poucos meses depois, encontrei-a em frente ao Copelia, imprudentemente parada numa esquina, com o cabelo um tanto sujo e despenteado. Por um momento,

acreditei-me diante de uma visão. É que eu a via como não a vira antes (e não era apenas a maneira de se vestir, mas todo o conjunto de sua pessoa). Ficou nervosa, começou a fazer movimentos cômicos, canhestros.. Levavam ambas as mãos um monte de livros, vestia um pulôver verde e calças de mescla. Seus olhos ressaltavam de uma maneira estranha. Depois, voltamos a nos encontrar por diversas vezes.

Um dia chamei-a, e ela veio. Empurrou a porta deste quarto tristíssimo e nele entrou como uma canção. Não vou contar nossa história. Nem falar de sua voz, do seu olhar, da surpreendente luminosidade de sua presença. Não era bonita mas vibrava como um instrumento vivo, e esmagava a tristeza com carícias: Afugentar, arrancar a tristeza porque ela é uma árvore estéril e frondosa, dizia e me beijava. E dizia também: O amor é uma flor rara, delicada, demora a desabrochar, dura pouco para logo despetalar-se. As outras flores são resistentes, nascem em qualquer lugar, onde bem querem, crescem sozinhas, não necessitam de cuidados. E colocava seus beijos em meus lábios. E a luz, a manhã, o sonho e a verdade logo se punham a mover-se ao mesmo tempo.

Quando chegava, este pequeno quarto se povoava de sons (ela dizia que eram pássaros e flores), mas a verdade é que o ar se punha em seu lugar, entre murmúrios. Tirava a roupa como estivesse dando suas vestes de presente ao vento. Como esquecer a alegria do seu corpo, a flexibilidade de sua cintura, seus seios, seus sumos e sabores!

Era uma criadora de sonhos e de verdades. Descalça, beijava o chão, os azulejos partidos do pátio. Amava as latas enferrujadas onde cresciam gerânios, as paredes descascadas, o ruído da chuva sobre o zinco, o trecho do mar na janela. Falava de pardais e de disparos, de incendiar a tristeza. Ia de um lado para outro, ajeitando e arrumando vasilhas e cascos, seu corpo cantava e suas canções subiam pelas paredes. Gostava do cheiro do alho e da couve-flor; fazia brilhar, quando os lavava, os pratos e os copos. Conseguia fazer tudo sem esforço, como se suas mãos dominassem as necessidades cotidianas. Não fazia perguntas. Tinha respostas sem perguntas e, à vezes, fazia do silêncio sua voz.

Como esquecer sua cabeça inclinada, a queda dos seus cabelos sobre os ombros? Esse algo que tinha e que não se pode explicar, que jamais poderá ser descrito ou ser dito, porque seria como tentar mostrar o coração da chuva. Em seu olhar, a manhã surgia espontaneamente, como água. Água de companhia ao despertar. Em seu corpo, o tempo era diminuto, miúdo, frágil. Dizia: o amor são dois corpos amarrados com corda louca, um martírio-prazer fugaz, intenso, fulminante. Mexer com o amor é como mexer com o fogo, dizer-lhe que não arda. O amor é um problema, ou lhe dão em excesso ou não lhe dão nenhum, e nasce e morre e não somos nem eternos, nem puros. E sufocava meus prostestos com seus lábios. Então, falava sobre a opressão familiar, a incompreensão dos pais, a aurora de uma nova época, a luta para construí-la. E havia nela alguma coisa que sempre estivera comigo.

É preciso esquecer as coisas fracas, os pensamentos melancólicos. A vida é uma música severa, grave. E eu a contemplava falando, vendo-a nua, sentada na cama, com a cabeça apoiada sobre os joelhos e as mãos cruzadas sobre as pernas encolhidas.

Eu nunca estava certo de que ela voltaria no dia seguinte, ou dentro de um mês ou de uma semana. Não gostava que as coisas estancassem. Às vezes passava semanas sem aparecer, ia ao amor total e não ao nosso cantinho, ia para o campo fazer a vida com as mãos, acariciar a terra, os frutos e as folhas..

Voltava ágil e inquietante. As faces ardendo, os cabelos queimados pelo sol e a alegria chispando nos olhos. Cansada de bom cansaço, trazia beijos silvestres e um sorriso amplo e trêmulo. Dizia que o trabalho é a mais bela alegria da vida. E a luz, a manhã, o sonho e a verdade punham-se a se mover ao mesmo tempo.

Mas um dia não amanheci mais em seu olhar. Perdi a gravidade de sua carne entusiasta, a sábia saliva dos seus lábios, as unhas de suas mãos diligentes, o perfumado esplendor dos seus cabelos. Deixou um vazio repleto de lembranças, lições e silêncios. Com qual vestido ela se foi? Não sei, alguma coisa se quebrou, evaporou-se, fez-se sombra e luz ao mesmo tempo.

Aqui sobrevive sua presença, no que ela elegeu para ser lembrada. Neste quarto ficou dela um ligeiro perfume, uma voz no vento, uma canção cantando nas paredes, um ar, o ruído da chuva sobre o zinco, uma folha esquecida, a luz entrando pela janela e o chilrear de um copo limpando a tristeza.

Ensinou-me a ver diferente? Não sei. Mas se algum de vocês a vir, transmita-lhe meus agradecimentos. Porque ela me deixou a recompensa: um livro, um sorriso, quatro paredes repletas de canções, um trecho de mar e uma janela.




In.Contos de Amor Cubanos. Organização Imeldo Ávarez (org.). Trad.: Joel Silveira. Rio de Janeiro: Record.

Imagem: http://aredenarede.com/pt/images/stories/eu-queria-ser-amor-geisa.jpg