sábado, 15 de agosto de 2009

Julio Florencio Cortázar


Como eu havia prometido, continuamos com o texto de Omar Prego sobre o encontro dele com Julio Cortázar em Paris. As fotos, também tiradas na Cidade Luz, em 1969, são de autoria de Pierre Boulat.


A todos, boa leitura!





(...)

Nós tínhamos nos conhecido em fevereiro de 1974, numa exposição de hiper-realistas norte-americanos, na Fundação Rockefeller de Paris. Ele era exatamente igual às fotografias: desmesuradamente alto, ossudo, desajeitado, e parecia caminhar com o permanente receio de esbarrar em algo. Naquela época tinha sessenta anos, mas ninguém lhe daria mais do que 45.

Lembro-me de ter esperado que terminasse sua visita – estava com um amigo – para me aproximar. Disse-lhe que eu era (um jornalista uruguaio que acabava de desembarcar em Paris) e expliquei-lhe a razão de estar importunando-o. Acabavam de prender, em Montevidéu, o escritor Juan Carlos Onetti, sob a absurda acusação de pornografia, pelo fato de haver sido jurado num concurso de contos organizado pelo semanário Marcha, de longa tradição de luta e dignidade e que fora fechado naquela mesma ocasião. Contei que também Carlos Quijano, diretor e fundador do semanário, estava preso.

Ouviu-me com cortesia, disse-me que já estava a par dos fatos, mas pediu-me mais dados e garantiu que iria fazer o que estivesse ao seu alcance para alertar a opinião pública. A promessa foi escrupulosamente cumprida, como todas que fez. Recordo-me que falamos numa grande escadaria de mármore na entrada, de pé, junto a uma escultura hiper-realista que representava um típico turista norte-americano, vestido com bermudas e uma vistosa camisa havaiana, óculos escuros, um boné com viseira, igual aos dos jogadores de beisebol, e uma ou duas máquinas de fotografia (de verdade) cruzadas no peito. A escultura parecia interessada em nossa conversa e estar disposta a participar dela, a qualquer momento.

Depois, continuamos a nos encontrar com certa freqüência, e acabamos ficando amigos. Em dezembro de 1982, depois da morte de Carol, propus a ele que fizéssemos uma longa entrevista, um livro que pudesse abarcar (se isso fosse possível, eu sabia muito bem que muitas coisas ficariam de fora) sua vida de escritor e combatente das causas que considerava mais justas no mundo, sobretudo o frágil processo nicaragüense, que o deixava muito angustiado naquele momento, e a defesa dos direitos humanos.

Concordou sem vacilar, mas me adiantou que em princípio teria que ser “um livro muito louco”. Combinamos fazer um número indeterminado de entrevistas – dez ou 12 no mínimo – que marcaríamos ao longo do trabalho, encaixando-as nos escassos intervalos de sua agenda, onde aliás nunca sobravam momentos livres.

Foi então, enquanto olhávamos as pilhas de encontros marcados, compromissos de militância em sua maioria, que ele me disse: “Estou pensando em transformar o ano que vem em um ano sabático. Sinto necessidade de me recolher para escrever um romance, custe o que custar.” Perguntei se já havia começado a escrever e respondeu que não. “Algumas anotações. Mas comecei a pensar nisso. Vejo o romance como uma nebulosa.”

Advertiu-me que provavelmente não poderíamos começar a trabalhar antes do verão. Tinha primeiro que terminar o texto que a morte de Carol deixara inacabado (Los autonautas de La cosmopista), um belíssimo livro onde é narada a viagem entre Paris e Marselha em uma Kombi desengonçada – realizada em 33 dias sem nunca sair da estrada e com escala em dois estacionamentos a cada dia, sendo que era obrigatório dormir no segundo – e que, no fundo, é uma comovedora história de amor. Depois, pensava em viajar para a Nicarágua e, no seu regresso à Europa, descansar alguns dias em casa de amigos, na Espanha.


(...)

Até amanhã!



In.O Fascínio das palavras. Omar Prego. Trad.: Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991, p. 5-6.
Foto by Pierre Boulat - Paris, 1969.