sábado, 8 de agosto de 2009

Ecce Homo


Como vimos, foi em 15 de outubro de 1888 que Friedrich Wilhelm Nietzsche começou escrever "Ecce Hommo". Nesta obra, o filósofo teve a preocupação intelectual de contar todo o processo de construção dos seus livros: um por um. Um trabalho exaustivo e belo; uma espécie de síntese de sua vida. O livro foi concluido em tempo recorde, ficando pronto em novembro de 1888.








Nietzsche aos 17 anos



Hoje, veremos mais um trecho de Hecce Homo



(...)



Meu pai morreu aos trinta e seis anos; era terno, afável e mórbido, como um ser predestinado a desaparecer; foi mais uma benéfica recordação da vida do que a própria vida. No mesmo ano em que a sua força vital declinou, também a minha começou a baixar: no meu trigésimo sexto ano de vida, desci ao mais ínfimo ponto da minha vitalidade – vivia ainda, sem dúvida, mas sem ver três passos à minha frente. Então – era o ano de 1879 – renunciei ao cargo de professor em Basileia, vivi durante o Verão como uma sombra em Saint-Moritz e, no Inverno seguinte, o mais pobre de sol da minha vida, como uma sombra em Naumburg. Foi o meu ponto mais baixo: apareceu então «O viandante e a sua sombra». Eu era na altura entendido em sombras... No Inverno seguinte, o meu primeiro Inverno em Génova, aquela doçura e espiritualização, condicionada porventura por uma extrema pobreza de sangue e de músculos, suscitou a «Aurora». A plena claridade e serenidade, e até a exuberância do espírito, que a obra mencionada espelha,compaginam-se em mim não só com a mais profunda fraqueza fisiológica, mas até com um excesso do sentimento de dor. No meio dos martírios que consigo trouxe uma ininterrupta dor de cabeça, durante três dias, com penosos vómitos, possuía uma clareza de dialéctico par excellence e pensava friamente em coisas para as quais, em melhores condições de saúde, não sou um alpinista suficientemente subtil e frio. Sabem porventura os meus leitores até que ponto tenho a dialéctica por sintoma de décadence: no caso de Sócrates. – Todas as perturbações doentias do intelecto e até aquele semi-torpor que se segue à febre, são coisas que até hoje me permaneceram totalmente estranhas, acerca de cuja natureza e frequência só me informei através do estudo. O meu sangue corre devagar. Jamais alguém em mim conseguiu constatar a febre. Um médico, que durante muito tempo me tratou como doente dos nervos, acabou por dizer: «Não! Não há nada nos seus nervos, eu é que começo a ficar nervoso». Há, sem lugar para dúvidas, uma qualquer degeneração local, mas indetectável; não é nenhuma doença de estômago organicamente condicionada embora, como consequência do esgotamento geral, se depare com a mais profunda fraqueza do sistema gástrico. A própria doença dos olhos, que de vez em quando se aproxima perigosamente da cegueira, é só efeito, e não causa: de modo que quando aumenta a força vital também se intensifica de novo o poder visual. – Uma longa, demasiado longa série de anos significa em mim a cura – mas, infelizmente, significa também ao mesmo tempo recaída, ruína, periodicidade de uma espécie de décadence. Depois disto tudo, precisarei talvez de dizer que sou perito em questões de décadence? Soletrei-as para a frente e para trás. Até mesmo aquela arte de filigrana da apreensão e da compreensão em geral, aquele tacto para as nuances, aquela psicologia de «visão dos recantos» e tudo o que aliás me é peculiar foi então aprendido, é esta a prenda verdadeira daquele tempo em que tudo em mim se apurou, a observação e ainda todos os órgãos da observação. Lançar um olhar desde a óptica do enfermo aos conceitos e valores mais sãos e, de novo, inversamente desde a plenitude e da autocerteza da vida abundante ao trabalho secreto dos instintos de décadence – eis o que foi o meu mais longo exercício, a minha genuína experiência, e nisso tornei-me um mestre. Está agora em meu poder, tenho mão para inverter perspectivas: primeira razão por que só a mim será talvez possível em geral uma «transmutação dos valores».



Ecce Hommo. Tradução de Lourival de Queiroz Henkel. Ediouro, s/d.
Imagem: Nietzsche aos 17 anos - Photography by Ferdinand Henning in Naumburg, beginning of June 1862. - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/da/Nietzsche_1862b.JPG