quarta-feira, 1 de julho de 2009

TEXTO - Francisco Perna Filho


Do paterno sou mulher rendeira,
sentada na esteira,
minha perna encolhida, minha perna dobrada,
minha perna estirada.
Minha saia sungada, minha coxa de fora
batendo os meus bilros
tecendo, marcando pontos
de uma renda do norte, uma renda sem fim.

(Cora Coralina)



Ser camisa ao avesso,
costura da qual se veem os pontos,
tecido ordinário nas mãos da tecelã.
Vida que se cruza entre um bilro e outro,
no tecido das grandes fazendas, na tintura de urucum.
Ser pano rasgado,
esquecido nas achas de lenha,
no choro de menino nascido,
no bordado da vida: renda.
Ser costura de rio,
na linha de vento,
tecendo em cada porto as manhãns de banzeiro,
em pontos de rede de pescador


Ser...
e costurar o enredo dos homens,
na procissão das idéias,
no sal amargo dos bóia-frias,
em pontos de cruz.
Tecido de entranhamento,
de estranhamento,
de cascalho da estrada,
sob o esguio olhar de quem anda a pé.
Reticência no texto-não-feito,
dos que definitivamente nunca serão.
Costura.
Ponto.
Entre uma vírgula e outra o ser pasma
no alheamento de sua existência.


In.Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p. 22-23.

Foto by Rodolfo Ward -2009 - Flores Tropicais: Alpinia Purpurata.