sexta-feira, 10 de julho de 2009

O que sabemos a respeito de nós mesmos?



No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
Solitário, sem sol e sem saída.
(Dante Alighieri)





Por Francisco Perna Filho


A luz, que para muitos pode cegar, torna-se essencial para outros, já que enxergar é ir além do que a vista alcança, quando, ao traduzir o visível, ampliamos o sentido das coisas e, com elas, compomos a alegoria da existência.

Tudo o que sabemos a respeito de nós, de algum modo, nos foi dado a partir dos outros, a despeito de qualquer vontade nossa. Impressões que vão compondo os esteriótipos do mundo, apesar de serem, muitas vezes, rasas demais.

É bem certo que não sabemos quase nada, mas algumas respostas poderemos encontrar, quando passarmos a observar o mundo mais detidamente, e isso, de certa forma, poderemos aprender com a arte, bendito fruto dos nossos artistas, tributadores da nossa inexperiência, do nosso convívio, das nossas diminutas percepções. São eles redesenhadores de um mundo que sempre quisemos e queremos, coberto de humanidade.

Talvez jamais saibamos, embora necessitemos de um mínimo de compreensão para suportarmos essa árdua caminhada, arrebatados que estamos pelo mercado que nos segrega pela fúria de um capital que nos diferencia, pelo abismo imposto por todas essas diferenças que a “modernidade” nos impõe.
Quantas obras literárias teremos de ler para que alcancemos uma compreensão do que é humano, para saber que Quixotes são necessários à nossa sobrevivência, que as utopias alimentam a ilusão da nossa perenidade e, que com elas, refazemos, a cada dia, os nossos moinhos de vento?

De quantos Míchkin necessitaremos para humanizar o mundo? De quantos Riobaldos para nos revelar a profunda geografia das nossas obtusas almas? Quantos Lorcas para nos dizer das agruras de uma morte inocente? De Jivagos, laras, Kareninas, Bovarys, para sabermos o quanto dói a perseguição, a calúnia, a ofensa e a maldade que, nos nossos dias, têm sido freqüentes?

Tudo isso nos leva a refletir sobre o valor da arte, sobre as possibilidades que o artista tem para transformar as coisas. Tudo isso nos faz crer na transformação do espírito, nas cores de um novo amanhecer. Só a arte nos livra do tenebroso anoitecer da ignorância, só ela nos faz avançar para além do que nos prende.