domingo, 7 de junho de 2009

MEMÓRIA - ENTREVISTA



Francisco Perna Filho









Entrevista originalmente publicada no Jornal Opção: www.jornalopcao.com.br





“O mundo é um grande texto”


"O escritor deve ter consciência do seu ofício, da sua importância no mundo, já que é um cronista do seu tempo.” Quem faz essa afirmação é o poeta e ensaísta Francisco Perna, autor do livro Refeição, publicado em 2001. Natural de Miracema do Norte (hoje, Tocantins), onde nasceu em 24 de novembro de 1963, Francisco Perna é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás, com uma dissertação sobre o poeta Manoel de Barros, intitulada Criação & Vanguarda: Bopp e Barros. Filho de Francisco Noleto Perna e Adalgisa Noleto Perna, é casado e pai de dois filhos. Professor de língua portuguesa dos cursos de comunicação social da Faculdade Cambury, Francisco Perna tem artigos publicados em revistas científicas da área de letras e é colaborador da revista eletrônica Bula (www.revistabula.com) Nesta entrevista aos escritores Valdivino Braz e Carlos Willian, ele fala do poder da palavra para decifrar o mundo e não poupa críticas aos escritores goianos que fazem da literatura um mero passatempo social. Mas garante: “Goiás tem grandes escritores”.


Valdivino Braz — Volta e meia, como no recente Encontro Nacional de Escritores, em Goiânia, fala-se em montar escola para escritores, no sentido de ensinar a fazer literatura ou formar escritor. Você acredita nesse tipo de coisa? Acha que o processo é esse para se ter escritor que preste?

Pode-se falar de estilo, forma, imagens, ensinar alguém a escrever (coisa muito difícil nos dias de hoje). Até aí, tudo bem. O que é inconcebível é alguém querer formar escritor. Esta história de escola para escritores é uma idéia rasa, demagógica e oportunista. Acredito que deva ser para tirar dinheiro público; viver à custa do estado, com promessas mirabolantes e alquímicas. Escola para escritor é como escolinha de futebol: o menino se matricula, tem contato com a bola, com outros atletas, aprende as regras do jogo; mas, se não tem talento, jamais será um craque. Para dizer a verdade, eu vejo tudo isso com um pé atrás. Talvez o Mário Prata tenha sido o último a propagar tal besteira por não ter preparado a sua fala no VI Encontro Nacional de Escritores. “É inconcebível alguém querer formar escritor. Esta história de escola para escritores não passa de uma idéia rasa, demagógica e oportunista”

Valdivino Braz — Ainda no terreno de formar-se escritor, como você vê o produto das chamadas oficinas literárias, parindo pseudopoetas, equivocados em relação ao texto poético e publicando excrescências que não vão a lugar nenhum? Nesse caso, o que fazer em relação a tais oficinas e suas abomináveis crias?

As oficinas literárias são válidas, desde que fique bem claro a que elas se destinam, que não é formar quem quer que seja, mas auxiliar as pessoas, pelo exercício da leitura e da escrita, a se expressar melhor, adquirir uma performance lingüística e textual. Eu posso falar muito bem sobre essa experiência, porquanto, desde 2001, mantenho uma oficina de criação textual, na disciplina de língua portuguesa para o curso de publicidade e propaganda da Faculdade Cambury. Os resultados são muito gratificantes. O progresso dos alunos na área da expressão é muito grande. Agora, é bem verdade que algumas oficinas tentam passar uma fórmula maravilhosa de como se tornar um escritor, um poeta, mexendo com a vaidade de pessoas incautas, sem o mínimo de senso crítico, levando-as aos livros, não como leitoras, mas como escritoras. Mas isso não acontece somente na literatura. Na música o processo é mais ou menos parecido, só que os investimentos são bem mais altos e o lastro de destruição é bem maior: as gravadoras, visando somente o lucro, incutem em alguns indivíduos que eles são artistas, e eles acreditam, vivem como tais, ganham muito dinheiro e morrem na ilusão artística. Algo parecido acontece no jornalismo: é o caso do indivíduo que escreve cartas para a coluna do leitor de grandes jornais e se autodenomina jornalista, às vezes, sob a tutela dos próprios sindicatos. Tudo isso é muito grave, e o mais grave de tudo, no que se refere à literatura, é que essa gente ainda encontra guarida nos prefaciadores de plantão, amigos do peito que, sem nenhum critério estético, alimentam o ego desses indivíduos, chegando ao absurdo de colocá-los no panteão dos grandes escritores.


Valdivino Braz — Como você interpreta a questão do escritor consciente do seu ofício e coerente com o seu tempo? E o que é, para você, a função social da literatura?

O escritor deve ter consciência do seu ofício, da sua importância no mundo, já que é “um cronista do seu tempo”. Precisa se inteirar dos acontecimentos e se rebelar contra tudo aquilo que atente contra a sagrada liberdade de expressão. Se a literatura é gerada num tempo e num espaço, num determinado contexto social e político, ela também pode refletir esse contexto social, denunciando as mazelas e opressões por que passam os indivíduos. Neste ponto, ela tem uma função social. De outro modo, como arte, tem um fim em si mesma: causar deleite e despertar para o estético.


Carlos Willian — O poeta e crítico Alexei Bueno disse que a poesia é um problema na vida da pessoa, um desastre na vida de qualquer um, da paz de espírito ao orçamento doméstico. Concorda com ele?

Você me fez lembrar um livro de ensaios do José Paulo Paes, Os Perigos da Poesia, título que faz alusão à república Platônica, já que Platão sugeriu a expulsão dos poetas de sua república, porque, segundo ele, a poesia despertava o inconsciente dos homens, o lado irracional. Para Paes, esse título alude ao paradoxo: sendo a poesia inofensiva, como ela pode ser perigosa num mundo extremamente consumista, já que seus consumidores são escassos? O Alexei tem toda razão: não existe meio poeta, como não existe mulher meio grávida. A poesia transcende qualquer compreensão, o poeta dela não se desvencilha: é um ser transtornado pela percepção perquiridora do ínfimo, numa concepção barreana, e isso afeta tudo. A poesia é para poucos, tanto os que a produzem, quanto os que a consomem, e sendo assim, é pouco valorizada. Portanto, sobreviver de poesia, só liricamente.


Valdivino Braz — Tem-se por empatia a tendência de alguém para sentir o que sentiria caso estivesse na situação e circunstância experimentada por outra pessoa. No caso do leitor em relação ao poeta, você diria que há pelo menos 50 por cento de empatia, ou que necessariamente não há que existir empatia, mas sim predisposição à leitura, para que o leitor se sinta preso pelo texto?

Por ser a boa poesia o texto por excelência, os seus leitores têm uma consciência e uma percepção do estético, e assim, movidos pelo desejo da fruição, vão ao encontro dela, pela linguagem, pelo estilo, pelas imagens, e não pela empatia com quem quer que seja. Quando se procura um texto poético, a “predisposição” é importantíssima, pois não se consegue distinguir um bom livro de um ruim, pela cara do poeta. Não estamos comprando carne, estamos falando de arte. O resto é compadrio.


Carlos Willian — Falando em “compadrio”, você prepara o seu doutorado sobre a obra do poeta Valdivino Braz. Não fica parecendo uma ação entre amigos?

Muito boa e oportuna a sua pergunta e, para respondê-la, vou ser bastante breve. Tenho um projeto para um doutorado e espero concretizá-lo em breve. Valdivino Braz é um grande poeta, dono de uma obra riquíssima, digna de reconhecimento. O meu conhecimento de sua obra é anterior aos nossos laços de amizade. Antes de nos tornamos amigos, escrevi o ensaio “Os Búzios do Braz no Mar da Linguagem” sobre o premiadíssimo A Trompa de Falópio, ganhador do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. No doutorado, espero fazer um trabalho digno do homem e da obra.


Carlos Willian — A critica é necessária?

A crítica é fundamental para a formação de bons leitores, já que a sua função é a de interpretar e avaliar a obra literária, destacando os aspectos estéticos e lingüísticos que contribuirão para o julgamento de determinada obra. É pena que essa crítica, hoje, esteja restrita à academia, aos centros universitários, não chegando ao universo jornalístico, como, outrora, a tínhamos de sobejo. Basta mencionar Otto Maria Carpeaux e José Guilherme Merquior, para sentirmos o tamanho da perda. O que é uma pena, pois se tivéssemos uma crítica efetiva nos jornais, evitaríamos muito dos equívocos, como os que ocorrem em relação às oficinas literárias. Espaços como este, do Jornal Opção, são raros. Iniciativas como estas, que resistem ao tempo, a governos, devem ser elogiadas, pois sabemos o quanto e difícil manter um caderno cultural, que não tem pretensões econômicas, a exemplo dos suplementos de outros veículos, que só abrem os seus espaços, quando o lucro é líquido e certo. É o caso clássico dos malfadados resumos de obras literárias, propagados por “livros” e jornais do Estado, causando um mal danado ao indivíduo que não lê e passa a banalizar a literatura e a sua própria língua.


Valdivino Braz — A experiência propiciada pela publicação do primeiro livro sempre deixa no autor alguma impressão significativa, como, por exemplo, perceber o que vem a ser realmente a coisa literária e o quanto o autor ainda tem que aprender. Impressão, aliás, gratificante. Alguma coisa nesse sentido ocorreu após a publicação de Refeição, seu primeiro livro?

Expressar-se por escrito ou de qualquer outra forma é sempre prazeroso, um ato carregado de significados e responsabilidades. Vejo que amadureci muito desde o meu livro Refeição, publicado em 2001. Tenho percebido o quanto ainda preciso melhorar o meu texto, mas essa é uma questão interessante para ser discutida, já que o primeiro passo eu dei: submeti o meu texto ao público. As críticas são boas, mas sei que tenho muito aprender, o que só a leitura de bons autores e o permanente exercício da escrita poderão proporcionar-me. É por isso que eu estudo bastante. Leio muito e escrevo sempre. Neste campo, autocrítica é a lei.


Carlos Willian — Quais os poetas, de Goiás, do Brasil e do mundo, que mais o influenciaram?

Para dizer a verdade, somos frutos das nossas leituras. Por intermédio delas é que passamos a ter consciência do mundo e nos tornamos críticos com relação às coisas. Com a literatura não é diferente. Muitos livros nos marcam e a gente termina por absorver muita coisa. Conscientemente, não sei se a minha poesia carrega uma marca em especial de algum poeta goiano. Isso os críticos poderão dizer mais tarde, já que a minha obra é ainda incipiente Mas temos grandes poetas, maravilhosos; expressões valiosas das nossas letras. Com relação ao restante do Brasil e ao mundo, as leituras são várias, mas alguns autores me marcaram mais, como Luiz de Miranda, um grande poeta de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul; o grandioso Gerardo Mello Mourão e o mato-grossense Manoel de Barros, sobre quem escrevi minha dissertação de mestrado Criação e Vanguarda: Bopp & Barros. Também me marcaram muito Moacyr Felix, genial, um ser comprometido com o seu tempo, de um lirismo estarrecedor; Fernando Pessoa, Tahar Ben Jelloun, o Herman Hesse de Andares, Rimbaud, Baudelaire.


“Poesia e filosofia sempre caminharam juntas. É natural para o escritor recorrer a temas filosóficos, amadurecer idéias, refletir o mundo”


Valdivino Braz — Poesia e filosofia costumam aliar-se na criação do poema, mas há quem condene essa parceria, pautando-se mais por um lirismo meloso ou por um coloquialismo equivocado, em nome de uma simplicidade que se quer mais ao alcance do leitor, como dizem. Como poeta e professor, como você vê essa questão?

A poesia e a filosofia sempre caminharam juntas. É natural para o poeta (escritor) recorrer a temas filosóficos, amadurecer idéias, refletir o mundo, buscar pela linguagem uma recifração desse mundo, daí a sua complexidade, e nem todos estão preparados para isso. A poesia pode optar por uma linha lírica sem ser melosa. Exemplos nós temos inúmeros na literatura universal: Camões, Baudelaire, Novalis, Goethe, Cesário Verde, Fernando Pessoa. O que não dá é para achar que qualquer coisa deve ser considerada; quanto ao coloquialismo, o poeta, dependendo do seu objetivo, pode se valer desse recurso. Lógico, que tudo muito consciente, e é justamente nisso que alguns escritores se tornam superiores. Lembremo-nos de Guimarães Rosa com o Grande Sertão: Veredas.


Carlos Willian — O poeta brasileiro, cada vez mais, é um erudito. Ele traduz, tem mestrado, escreve ensaios e resenhas; mas, mesmo assim não consegue viver de poesia. Então, qual o caminho?

O Caminho de Santiago de Compostela [Risos]. Educação, meu caro, educação. Enquanto não tivermos uma educação cultural, que nos desperte para a nobreza da palavra, não conseguiremos fazer nenhuma mudança. A poesia deve ser incutida na criança desde cedo, aliás, desde o ventre materno, já que a leitura sensorial é comprovada nos primeiros meses de vida. Se uma criança é gerada num ambiente de tranqüilidade e paz, tende a ser um adulto equilibrado e tranqüilo; se, durante a gestação, o pai canta para criança, acaricia a barriga materna, declama poemas, enfatizando, claro, a sonoridade, ao nascer, essa criança já estará sintonizada com o artístico, com a palavra poética. A educação pela palavra deve ser uma tônica nos lares. Não estou aqui querendo ditar regras de comportamento, mas, tão somente, tecer alguns comentários sobre a experiência de ensinar, de trabalhar como professor e, claro, por ser pai de duas belas crianças, que lêem.


Valdivino Braz — Como professor na Faculdade Cambury, você adota livros de autores goianos, fato não muito comum nas instituições de ensino superior em Goiás. O que o leva fazer esse trabalho?

O mundo é um grande texto e nós somos leitores desse grande mundo. Uns lêem como maior profundidade; outros, superficialmente. Os escritores, sejam goianos, baianos, cariocas ou paulistas buscam uma tradução daquilo que está acontecendo, ou do que poderia acontecer nesse grande mundo, seja pelo surreal, pelo insólito, pelo lirismo, pelo realismo, ou por qualquer outra forma de expressão, eles estão a serviço da literatura, conseqüentemente, da palavra. É na literatura que vamos encontrar a chave para decifração desse grande texto. É por isso que eu trabalho com os autores goianos, porque, além da universalidade dos temas, muitos traduzem o nosso povo, as nossas tradições, fatores imprescindíveis para a construção da cidadania, que só pode ser efetivada quando o indivíduo se descobre como leitor crítico do espaço que habita. De uma coisa tenho certeza: os meus alunos são diferentes, porque são críticos. Porque lêem literatura feita em Goiás. Agora, o que me deixa abismado, é o fato de outros professores não fazerem o mesmo, apenas mencionam o nome dos nossos escritores, quando são obrigados, já que a UFG adota, nos seus vestibulares, a leitura de alguns autores goianos. Então, o professor de segundo grau, cursinho, e os oportunistas dos resumos de obras literárias fazem a festa. No dia em que tivermos representantes mais cultos na Assembléia Legislativa, e isso só se dará se formarmos leitores críticos, leitores do seu Estado, da sua cidade, do seu bairro, sem dúvida, a literatura goiana terá a sua vez em todas as escolas deste Estado. Aí, sim, eu serei apenas mais um a atravessar o Paranaíba.


Carlos Willian — Qual sua avaliação sobre a literatura goiana desde os livros de receitas culinárias até os de auto-ajuda à lá Paulo Coelho?

Falando em literatura goiana, temos obras muito boas. Fazer uma avaliação detida demandaria muito trabalho e empenho. O momento não é adequado, até porque não estou à altura de traçar um cânone do que quer que seja. Mas não podemos deixar de dizer que há muita coisa ruim sendo publicada.


Carlos Willian — Na revista eletrônica Bula, você publicou o ensaio “O Pó da Pós-Modernidade”, criticando o Prêmio Flamboyant de artes plásticas. Por quê? O que há de errado com a arte conceitual?

Na verdade, fiquei indignado com tanta besteira exposta. Jamais imaginei que fossem privilegiar tamanha estultice. Salões como o Prêmio Flamboyant precisam buscar uma identidade, sair da mesmice; parar com essa coisa de desconstrução, que não leva a nada. Dizem que o que vale é o conceito, que tudo é arte, e, em nome disso, levantam paredes absurdas, enfiam pregos em escova de dente, lâminas em sabonete, fotografam parentes e amigos em poses patéticas, colam tecidos em tela, amontoam redes e espelhos, e ainda têm coragem de chamar isso de arte. Pelo amor de Deus! Estes e outros motivos foram explicitados no meu ensaio.


Carlos Willian — Para você o que é poesia? O que é poema?

Toda definição é sempre muito complicada. Corremos o risco de ser simplistas. No caso da poesia, mais ainda. O importante é sentir a sua essência: imagens, musicalidade e linguagem. Erza Pound, ao definir a grande literatura, disse que grande literatura é linguagem carregada de significado até o último grau possível. Talvez esteja aí uma boa resposta.