quinta-feira, 18 de junho de 2009

CONTO - ÚLTIMAS PALAVRAS

Francisco Perna Filho



Já passava das 9h, subitamente fora acordado pelo barulho do despertador, levantou-se de sobressalto e olhou apressadamente para o relógio no criado da cama. Era preciso correr, não tinha muito tempo. Olhou-se no espelho da sala, vira um rosto amassado pela longa noite de sono. A barba por fazer, não ficaria bem ir assim. Abriu o armário do banheiro, pegou uma gilete, creme de barbear, tudo muito corrido, tudo muito depressa, tudo muito preciso.

Era preciso acelerar, o carro cantou pneu, saiu em disparada. Nada poderia detê-lo, não fossem os sinais que sucessivamente iam se fechando. Conspiração! Pensou. Não adiantava impacientar-se, mas impacientou-se. Esmurrou o volante, saltitou no banco do carro. Ensaiou, numa sequência rápida, engatar todas as marchas, mas nada. O carro permanecia imóvel, apesar de bufar pelas aceleradas do seu condutor. O homem, a máquina e o sinal.

Lembrou-se do que lhe dissera a viúva, logo após ficar sabendo do acontecido: “ele estava bem, fez um lanche às 15h, tomou banho às 19h, tomou um copo de leite às 20h e viu televisão. Às 22h, beijou-me, se disse indisposto, e foi se deitar. Ninguém sabia de nada, ele nunca havia mencionado que sentisse qualquer coisa. Nenhuma dor, nada! Continuava como sempre, seguia a sua rotina no atelier, continuava muito visitado por amigos, discípulos e colecionadores.

Os sinais foram se abrindo, um a um, e o carro arrancou com toda força. Não poderia atrasar-se. Afinal de contas aquela seria a última homenagem que faria ao seu grande amigo. Acelerou fundo, passou sob o viaduto em direção a Bela Vista, passou em disparada pelo autódromo, não parou no sinaleiro que, de súbito, se fechara. Precisava chegar a tempo. Precisava chegar a tempo.

Retornou ao que lhe dissera a viúva: “Nos últimos dias, eu o achei estranho, há muito que ele não abria um velho armário onde guardava suas primeiras telas, as quais não mostrava para ninguém”. - Falava, emocionada, a mulher – “Chegou mesmo a dizer: Eu quero que a Celina fique com esta tela, se me esquecer, não deixe de dar a ela”. O quadro era um velho Dom Quixote montado no seu Rocinonte, assinado em letras vermelhas, datado de dezembro de 1963.

Muitos carros estavam estacionados ao longo da pista lateral do cemitério, ele deu a seta, indicando que viraria para o lado esquerdo. À sua frente, do outro lado, uma placa com letras grandes e prateadas em que se podia ler: “Cemitério Memorial”. Suspirou fundo, esperou um carro que passava no sentido contrário da pista, mais uma vez acelerou com vontade, atravessou a pista, virou para direita, muitos carros, muito movimento. Procurou um lugar no estacionamento, parou a uma quadra da sala de velório. Desceu do carro, caminhou rápido, estava um pouco alterado, temia não mais encontrar o amigo, apressou o passo, passou por um longo corredor, quando encontrou um conhecido, perguntando pelo amigo morto, obteve como resposta: “não, ainda não o enterram”.

Estava com sorte, pensou. Passou por duas salas, apressou o passo mais ainda, chegou à sala, onde o amigo estava sendo velado, no momento em que estavam fechando o caixão, na hora em que já estavam colocando os parafusos que prendiam a tampa, no exato momento, ele estacou e, ali mesmo, gritou: “Por favor, não fechem! Não fechem! Eu preciso vê-lo pela última vez, por favor! Houve um silêncio, as pessoas se entreolharam, o caixão foi reaberto, quando ele, se aproximando do caixão, começou um discurso, a princípio desconexo, para depois ir tomando forma, tornando-se inteligível. Na medida em que falava se lembrava da viúva: “ele falou muito da exposição que fariam em homenagem a ele, a homenagem que você estava organizando. “Ele gostava muito de você”.

Todos ali, comovidos e atônitos, presenciavam aquele homem na sua última homenagem, nos arroubos da meia idade, no enlevo das palavras, menos alguém, um homem alto, de uns quarenta e seis anos, que meneava a cabeça negativamente, enquanto ele pronunciava suas comoventes palavras: “Ele foi nosso mestre, todos nós, se não a maioria, aprendemos com ele. O nosso pai no desenho, na pintura, um verdadeiro mestre na acepção mais elevada do termo. Obrigado mestre e amigo”.

Enquanto proferia suas últimas palavras, absorto naquilo que acreditava, não observou as pessoas mais próximas ao caixão, atônitas, pareciam não entender aquele discurso esquizóide, ainda mais vindo de pessoa tão culta. Só se deu conta quando o homem se aproximou e falou baixinho ao seu ouvido: “Pedro, Pedro, quem está aí não é o seu amigo Cervantes, quem está aí é mamãe, a minha mãe, você entrou na sala errada”. Quando se deu conta do feito, não sabia o que dizer e não disse, naquele momento, apenas uma sentença fora pronunciada: “mamãe, mamãe! a vovó tá dormindo. A vovó tá dormindo”.


Foto by Francisco Perna Filho - Caminito de La Boca - Buenos Aires