domingo, 17 de maio de 2009

Primeiras leituras, relatos de reconhecimento

                                                         Francisco Perna Filho 

 
 





Como em todo campo artístico, a literatura também tem o seu período de formação, sofre e exerce influências, carrega marcas do tempo em que foi gerada, modifica vidas, reflete tendências, ultrapassa fronteiras. Portanto, muitas são as fontes formadoras; muitos são os pais, inúmeros são os filhos.  

A literatura universal está cheia de relatos das mais diversas "experiências iniciáticas" como foi o caso de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, François Mauriac, todos eles, de alguma maneira, trazem lembranças agradáveis das primeiras leituras, quase sempre adquiridas na infância, ao passo que avaliam o quanto elas foram fundamentais para que eles chegassem onde chegaram.  

Todos têm uma história para contar, apoiados que estão nas suas experiência vividas e lidas, como é o caso do Escritor e Jornalista Inglês Graham Greene (Pontos de Fuga, Record, 1980), ao relatar magistralmente as suas leituras de mundo: Haiti, Vietnam, Praga, Paraguai, Quênia, África, numa demonstração de que a precisão da vida está em enfrentá-la.  

Quem nunca sofreu influência? O que é um texto, senão um mosaico de citações, na fala de Júlia Kristeva? O que é ser original? O que é estilo? São questionamentos feitos por músicos, artistas de toda ordem, poetas, como os goianos: Brasigóis Felício, Gabriel Nascente e Valdivino Braz, que falaram sobre as influências sofridas, as leituras basilares, fundamentais para a formação de cada um. Todos são filhos de um ou muitos pais intelectuais, também são pais intelectuais e, por serem autores, coisa bem diversa de narrador, instância ficcional, na vida real, também são pais, homens amorosos, dedicados às suas famílias, daí, cada um deles, em algum momento, ter dedicado poemas aos filhos. Valdivino, para Caroline, Randal e Jiuliano;   Brasigóis, para Pettras, e  Gabriel, para Thiago.


Os poetas por eles mesmos

   

Valdivino Braz

Minhas primeiras leituras, após a Primeira Cartilha, de Theobaldo Miranda Santos, e a Cartilha Sodré, de Benedicta Stahl Sodré, edição de 1952, foram obras da coleção Tesouros da Juventude, bem como de Julio Verne “Vinte mil léguas submarinas”, Lewis Carrol “Alice no país das maravilhas” e Monteiro Lobato. Li um pouco de tudo isso na biblioteca do Grupo Escolar Coronel José Teófilo Carneiro, onde estudei, em Uberlândia (MG).

Por volta dos 17 anos de idade, comecei a ler romances condensados na revista Seleções do Reader´s Digest, além de outras revistas como Quem foi?, Suspense, Magazine – “Mistério Magazine” de Ellery Queen, todas voltadas para histórias policiais, de crime, mistério e suspense. Daí vieram os pocket books do gênero, com aquele clima de detetives, antes de eu chegar às obras de Agatha Christie, George Simenon, Arthur Conan Doyle (com Sherlock Holmes) e outros.  


Influências literárias


Fui influenciado pelas revistas de crime, mistério e suspense, que comecei a escrever contos, ainda em Uberlândia, e rasguei todos (hoje me arrependo) às vésperas de mudar-me para Goiânia. Me lembro de três deles (os melhores de minha lavra), intitulados, pela ordem de produção: Os herdeiros; A Moeda; e Depois da meia-noite. Já em Goiânia, em 1964, descobri Ernest Hemingway e, com sofreguidão, li tudo dele, inclusive biografias. Vieram de Hemingway as influências para o meu primeiro livro de contos, Cavaleiro do sol, publicado em 1977. Mais tarde descobri Joyce e outros gênios da prosa moderna. Desde então as coisas em minha literatura mudaram de figura.

  POEMAS 


CARACOL 

Ah, esta fala inaugural de Caroline! Retine. Clara voz em linha de caracol, na casa dos quatro anos - cabelos "arrumados" pelo sono, cachos com filigranas de sol. Cocon para dizer botão, papom para dizer batom, pepoj para dizer bigode, mimalte para dizer esmalte, memelho para dizer vermelho, quicido para dizer vestido, panquega para dizer manteiga, quimiga para dizer formiga, pipieta para dizer borboleta, quicone para dizer telefone, Ó Queus! Para dizer Ó Deus!

                                                 (In A Dança do Intelecto,1996)

  

CAFÉ DA MANHà

Eu me reconheço nestes moços. No perfil de Randal e até nos ossos de suas omoplatas. Me escondo ali na sombra do outro, no seu jeito circunspecto. Me lembra o homem que nos envelhece um pouco antes do menino. Eu me redescubro no modo calado de Juliano. Ó folhas do tempo, não são os retratos que nos realçam, mas estes rostos, espelhos em que me contemplo, reflexos dos meninos que passam.

                              (In A Dança do Intelecto,1996)

 

  

Brasigóis Felício 

 

Tudo começou antes que chegasse a amar os Beatles e os Rolling Stones. Trabalhava em uma papelaria, onde também se vendiam livros: o Bazar do Estudantes, em Campinas. Um dia, ao acaso, abri um livro, uma coletânea de contos de Machado de Assis. Entre maravilhado e espantado por existir aquela dimensão tão maravilhosa da vida, li o conto Uns braços. Não parei mais. Tomado por vertigem e volúpia, ao perceber tanta beleza e sensibilidade, traduzidas em linguagem, passei a devorar, com avidez, os clássicos da ficção e da poesia. Nacionais, ou não. Castro Alves, com seus vôos condoreiros e seu romantismo, Álvares de Azevedo, com seu spleen e melancolia, Casimiro de Abreu, com seu lirismo... depois, Cecília Meirelles, lírico-mística, Manuel Bandeira, magia do coloquial, Lima Barreto, sátira e amargura, sempre voltando ao velho Machado, mestre maior de todos nós.  


Influências literárias 


Porém, foi ao ler Crime e castigo, de Dostoievski, senti vertigens. Fiquei quase um mês fora de órbita, meio que alucinado, não sabendo se vivia naquela Rússia czarista em que havia tanta miséria humana, em meio a tamanho delírio idealista, ou se na miséria brasileira mesmo, sempre muito parecida com a da Rússia, sendo os dois povos iguais, em sua alma mística. Foi a leitura que mais produziu impacto em todo o meu ser, deixando marcas profundas, dentre elas a certeza de ser este o meu destino, a minha lenda pessoal: ser poeta, escritor. Eu me enfurnava nos cantos baldios da livraria, escondia-me no banheiro, e roubava todos os livros que podia roubar, levando um a cada dia, sob a camisa. Tornei-me irrecuperável, em ser outsider, estrangeiro em mim mesmo, em meu país, em minha cidade, em minha casa doméstica. Sonhando em que um dia todos caminhariam pelos jardins da beleza, dos ideais elevados, e das sublimes fantasias.

 

Vieram, a seguir, leituras também arrasadoras, agitaram, convulsionaram a minha mente fervilhante: Os irmãos Karamazov, Memórias do subsolo, e Recordações da casa dos mortos, de Dostoiévsky, Almas mortas, de Nicolai Gogol, Pais e filhos, de Turgueniev, contos de Tchekov... para não falarem que não falei nos franceses: Balzac, Flaubert, Sartre, Camus. Outros torpedos que me levaram a entrar na noite escura da alma: Baulelaire, Rimbaud, Edgar Allan Poe. Mais tarde, outro encontro mágico, que me deixou  viciado em viver vertiginosamente: Henry Miller, com sua prosa caótica, fragmentária, seus insigths de poeta-profeta, seu amoralismo pérfido de artista da raça dos malditos. Muitos outros, dentre eles outro maldito brasileiro, Lúcio Cardoso, em seu clássico Crônica da casa assassinada, fizeram com que visitasse o céu e o inferno, em estadas terríveis, que deixaram marcas em minha alma ardente. Todos eles fizeram com que eu me tornasse este anjo (ou demônio) escrevedor que eu quis ser, e SOU.  


Poemas 


Lição de claridade

(Ao Pettras, meu filho)

 

Vi dormir meu filho, um dia,

numa noite, desesperado.

havia calma em seu berço.

Foi como se viajasse

em sua entrega fragílima

e de repente ficasse puro.

Havia calma, em seu berço

esta calma sereníssima

só dos anjos rebelados.

E como habitasse meu corpo

um turbilhão de demônios

quase fugi, arrependido

de fitá-lo, agoniado.

Vi dormir meu filho, um dia,

numa noite, desesperado.

foi como se viajasse

ao rio (morto) da infância.

(In Escrito no muro, 1980)

  

Gabriel Nascente 


 

A minha formação cultural começou quando, nos primórdios dos anos 60, eu juntava aí perto de 15 anos. Recém-chegado ao curso de Aprendizagem Industrial, da então Escola Técnica de Goiânia, por admissão ao ginásio, era órfão de pai, pobre e filho de marceneiro, sem jamais saber que a “Canção do Exílio” era de autoria do romântico poeta Gonçalves Dias, tamanha a minha ignorância literária. Foi então que, nessa quadra da adolescência, escrevi os meus primeiros poemas e publiquei “Os gatos”. Um espanto, geral, entre amigos de aula, professores e tudo; pois nada, absolutamente nada, eu sabia sobre literatura (Muito menos que existiam escritores em Goiás). Motivo pelo qual fui condenado a um divã psiquiátrico. Até aí, confesso: o meu índice de leitura era zero. A partir daí, da publicação do meu primeiro livro “Os gatos” em 1966, eu me endoidei por leitura, e caí-me, de sorvo, sugando tudo que vinha às mãos. 
 

 Influências Literárias


Li, fervorosamente, alguns clássicos da literatura ocidental, principalmente, Franz Kafka, o orelhudo de Praga; depois, Kalil Gibran Kalin (oriental), o genial aviador Saint-Exupéry, pai do “Pequeno Príncipe”, “Terra dos homens” etc., o jesuíta francês Teilhard de Chardin, os portugueses Guerra Junqueira e Antero de Quental, e ainda os poetas Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e Poe – autores que exerceram, em mim, verdadeiras overdoses de fomento e alento, para a formação intelectual da minha visão de mundo, o cosmológico dentro da óptica do espírito poético. Também me fixei, apaixonadamente, na leitura de Hemingway e Camus, antípodas um do outro, em estilo e conteúdo. Já o meu contacto com os gregos veio um pouco tardo, bem depois, quando descobri Homero, Sócrates e Platão.Daí pra frente, nunca mais abandonei o hábito da leitura, mesmo porque é nela (na leitura) que eu me encasulo, espiritualmente, livre, enquanto leio, das espurcícias do mundo. Ah, eu ia me esquecendo, a “Bíblia” e Shakespeare, “Dom Quixote” e “Os sertões”, também andaram adubando a luz dos meus olhos. 

    

Poemas 
 

Poema para Thiago 

            

             I 

Me dê cá a mão, filho.

A caminhada depois da infância é dura.

O sonho depois da infância é duro.

A vida depois da infância é dura. 

Depois da infância

a infância é dura.

         

           II

Filho, me dê cá a mão.

Do berço à maturidade celestial de teus olhos,

caminharás pelas escarpas do mundo

com teu pesadíssimo fardo de sonhos e medo. 

        III 

É inútil, filho, combater os fantasmas

dentro da luz. O ódio, a traição e a morte

são invisíveis na trajetória da vida,

apesar do velho lume estendido na cabeça

deste planeta. 

É inútil, filho,

beijar a face de Eros,

melhor seria libertar o pensamento

do maior subversivo da história

que ainda jaz sangrando na cruz,

ou no fundo de alguma prisão. 

          IV 

Reza. Reza, filho meu,

para que não faltem cereais e pão

na mesa, onde um dia, jogarás

os proventos de teu próprio suor. 

        

A humanidade, filho,

é carente de um só

veículo: amor. 

(In Pastoral, Ed. Oriente, 1980)

 

Fonte da imagem: http://amorinhas.files.wordpress.com/2009/02/alfredomunhoz-caminhos.jpg