sexta-feira, 3 de julho de 2015

Francisco Perna Filho - Conto





“Não há desejo do carrasco que não seja sugerido pelo olhar da vítima”
(Pasolini)





1


Você precisa matar, precisa matar. Use uma arma branca, não pode ser de outro tipo. Tem de matar. Só assim eles vão te reconhecer, vão te respeitar.

Ali estava o corpo caído, o homem ainda ofegante. Quase ninguém percebeu. Já era tarde da noite. Uma sirene ao longe, um miado espaçado, algum gato perambulava pelos telhados vizinhos. E o corpo ali, ainda com vida. Ele parado, parado e frio, como a noite de terça. Na altura do tórax, a faca, branca, branca. Pintada de branco, mas já não tão branca. Havia sangue nela, sangue coalhando, como ele, ali congelado, não ouvia mais nada. Um táxi passou em disparada.

As vozes sempre me perseguiram, não tem momento certo. De noite, de madrugada, de dia, como se alguém falasse no meu ouvido. Já me acostumei com elas, às vezes pensam que sou maluco, mas eles não sabem que estou conversando com elas. São vozes femininas, infantis, masculinas, graves. Depende da ocasião. Esta, a que me mandou furá-lo, por incrível que pareça é infantil. É sempre assim, quando querem alguma coisa, não cessam enquanto eu não as atendo. Às vezes é uma simples coca-cola, um algodão doce; outras vezes uma cerveja, uísque. Já roubei para satisfazê-los.


Era bem tarde e as pessoas dos prédios próximos, acordadas pelo barulho da sirene, cadenciadamente acendiam as luzes, abriam as janelas. O local do crime foi se enchendo de gente, vindas dos prédios, das ruas próximas. Iam chegando e se aglomerando em volta do corpo, queriam saber, queriam testemunhar, pareciam excitadas. Todas elas. E o corpo ali, já sem vida, à vista de todos. Pronto para ser levado, para deixar o chão frio, o asfalto escuro, tão escuro quanto o sangue coalhado no homem, na faca, apesar de branca, turvo de sangue, coalhado de ódio.

Eu sabia que ele estaria ali, àquela hora. Eu sabia por que eles me disseram, ou melhor, ela me disse. A criança, de quem eu falei, me acompanha, quase sempre está por perto, me falando o que fazer. De vez em quando, me diz algumas besteiras, nem parece ser criança, mas eu não me importo, não me incomodo. É sempre assim. Ontem me perturbou o dia inteiro, falou mais forte, à tarde, que eu precisava matar, não especificou, de imediato, quem. Só me guiou, e eu atendi, fui ao encontro da vítima, no horário e lugar determinados. Ele me olhou, senti o medo estampado nos seus olhos, parecia mesmo um olhar de temor, de terror. Quanto mais ele me olhava, mais eu sentia prazer, mais a voz me conduzia, dizia-me que se eu fizesse tudo direitinho, eu seria feliz, ficaria tranqüilo, que ela desapareceria, não me incomodaria mais.

Com a chegada da polícia, as pessoas foram afastadas, a área isolada por uma fita amarela, como as que se vê em filmes policiais. E ele, como se nada tivesse acontecido permanecia aos pés do cadáver, os olhos distantes, uma voz desconexa, um semblante calmo. Um sargento e um soldado, os dois pegaram-no (o rapaz) pelo braço e levaram-no para o camburão, para o engradado da parte traseira do carrinho Fiat, enquanto os bombeiros, que também chegaram em seguida, recolhiam o corpo morto, o torto destino.

No momento, logo quando eu o avistei, tive um pressentimento de que ele fosse quem eu procurava. Parecia atraído por mim. Uma força, um visgo, sabe como é, né? Se ele quisesse correr, poderia muito bem ter corrido, mas nada, caminhou na minha direção, só conseguia ver a sua sombra. Estava muito escuro, e eu fiquei ali esperando. Tudo era silêncio, e ele caminhando na minha direção. E eu o esperei. Eu sabia que ele viria.

Fotógrafos, repórteres, a essa altura, um tumulto. Alguém grita, chama a atenção do legista, que já se recolhia. Este se volta em direção ao grito e vê um soldado trazendo, em uma das mãos, um embrulho, uma caixa envolta em papel colorido, com motivos infantis. O soldado entrega a caixa ao legista, que a recebe e a leva para a ambulância, ali estacionada.

Eu sempre tive o poder de atrair as pessoas, desde pequeno. É sério, nunca ninguém escapou de mim, dos meus desejos, das minhas vontades. As vozes, eu tinha sete anos, quando eu as ouvi pela primeira vez. Eu estava sentado, estudando, e comecei a ouvir um zumbido, sons embaralhados, estranhos. Não sabia o que fazer, só me restou correr na direção da minha mãe que estava aguando as plantas no quintal. Era manhã.

Ele chegou, não deu tempo para nada. Enfiei-lhe a faca, a faca no peito dele, com muita força. Depois fui rodando a faca, enfiando e tirando, até ele dar uma golfada de sangue e cair, quase sem vida.

Terminando o seu relato, o delegado determinou que ele fosse levado à cela, contígua à sua sala (do delegado). Puseram-no, ali, tranqüilo, sem remorso, alheio a tudo. Logo adormeceu.


2

MORS ET FUGACEM PERSEQUITUR VIRUM
(Horácio)


Ao abrir a caixa resgatada, o legista, por um bom momento, ficou a contemplar a caderneta de folhas recicladas, de capa dura, com os seguintes dizeres: Mors et Fugacem Persequitur Virum. Nas três primeiras páginas, recortes de jornais, notícias de assassinatos, desenhos de símbolos estranhos, que o legista tentou, em vão, decifrar. As bordas das páginas, todas estavam pintadas de vermelho, riscos grossos, feitos a giz-de-cera. Da quarta a sétima páginas, fotografias de armas, alguns as mais variadas, estavam presas por grampos. Nas outras, em letras quase ilegíveis, podia se ler:

1.Quando a primavera chegar, e o sol já houver se posto, uma sombra se abaterá sobre a terra, e o filho do homem, conduzido pelas nobres vozes do universo, fincará a seta do reencontro, cumprindo o que, há anos, fora programado.

2.Nada poderás fazer, senão caminhar em direção àquele que o espera. Não sentirás dor, nem medo, muito menos pavor. Não quererás fugir, nem olharás para trás. Tudo que tens a fazer é cumprir o que fora programado. Naturalmente.

3.Se cumprirdes o que estou te ditando, certamente, não mais ouvirás a minha voz e, muito mais confortável, terás cumprido a tua sina. Quando o branco da seta se unir ao teu corpo, mostrarás, com o teu sangue, que ninguém foge do seu destino.

4.Estarás deitado no asfalto escuro, assistido pelos curiosos das cercanias. Ouvirás as sirenes que se aproximam. Contemplarás o pasmo olhar das pessoas. E saberás do caminho de volta.

5.Quanto ao teu destino, verás nos olhos do outro que te olha, o teu olhar, o mesmo olhar que ele supõe ver em ti: pavor, mas nada disso te fará recuar, pois já vens caminhando há longas datas, desde a infância, quando, as primeiras vozes determinaram os teus dias.

Ao fechar a caderneta, na última capa, em letras bem miúdas, o legista pôde ler:

A morte alcança até o homem que foge.


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